Travessa Dr. Heinzelmann, 187 - Porto Alegre-RS 51 3223-7787

Em entrevista à revista especializada diretor da Rava Campos fala sobre incêndio no prédio da SSP/RS

Fonte: Por Paula Barcellos/Jornalista da Revista Emergência

O incêndio ocorrido no prédio da SSP (Secretaria da Segurança Pública) do Rio Grande do Sul, em 14 de julho último, traz à tona a questão da Segurança Contra Incêndio em edificações existentes (antigas). Construído na década de 1970 para abrigar a sede da antiga RFFSA (Rede Ferroviária Federal), o imóvel tinha nove andares e aproximadamente 32,55 metros de altura. Com a privatização da RFFSA, na década de 1990, a SSP assumiu o edifício em 2002.

Logo no início da ocorrência, o coronel e comandante-geral do CBMRS, César Eduardo Bonfanti, comentou sobre a velocidade em que as chamas se espalharam no prédio. “É prédio antigo e que certamente tem uma carga de incêndio muito grande. Em todo prédio com essas características, a propagação se torna muito fácil”, disse em entrevista ao portal GZH. Na oportunidade, também falou que o PPCI (Plano de Prevenção e Proteção contra Incêndios) do prédio estava em fase de adaptação dos sistemas, mas já tinha certificado de aprovação.

Em entrevista à revista especializada diretor da Rava Campos fala sobre incêndio no prédio da SSP/RS

Crédito: Rodrigo Ziebell/SSP-RS

Em nota, a SSP RS diz que o PPCI foi aprovado pelo CBMRS em 6 de junho de 2018, sendo que o próximo passo é a execução das medidas de segurança contra incêndio aprovadas e, posteriormente, a solicitação da vistoria do CBMRS para a emissão do APPCI (Alvará de Prevenção e Proteção Contra Incêndio). A nota cita que já havia sido executada a substituição e colocação de todos os extintores, de todas as sinalizações e iluminação de emergência, da instalação dos sensores de fumaça e trocadas todas as mangueiras dos hidrantes. No momento, estavam realizando a substituição dos motores de pressurização, sistema de exaustão de fumaça das escadas de incêndio e casa de máquinas para os motores.

Ainda conforme a nota, o prédio é considerado existente à luz da Lei Complementar nº 14.376/2013 e suas alterações, possuindo altura de 32,55m, por isto no PPCI foi previsto chuveiro automático, mas que por motivo de inviabilidade técnica para instalação foi substituído por medidas de segurança contra incêndio mitigadoras, conforme permite a legislação vigente.

“COMO MEDIDAS MITIGADORAS FORAM PROPOSTOS A INSTALAÇÃO DE UMA COLUNA DE HIDRANTES LOCALIZADA NO MEIO DO PRÉDIO, JUNTO AO CORREDOR, A INSTALAÇÃO ADICIONAL DE EXTINTORES DE INCÊNDIO PORTÁTEIS E O TREINAMENTO DE BOMBEIROS CIVIS COM FUNÇÃO EXCLUSIVA PARA COMBATE AO INCÊNDIO E ORIENTAÇÃO PARA SAÍDA DE EMERGÊNCIA”, CITA A NOTA.

Ela ainda esclarece sobre o prazo de execução das medidas. “Quanto ao tempo transcorrido entre a aprovação e a execução, conforme ocorre com qualquer obra pública, a execução do PPCI foi realizada através de licitação, o que acaba contribuindo para uma maior demora até execução final em virtude dos trâmites de uma concorrência pública. É importante destacar, que à luz do Decreto Estadual nº 51.803/2014 e suas alterações, o prédio possuía prazo para a adaptação das medidas de segurança contra incêndio e consequente obtenção do APPCI até 27 de dezembro de 2023”.

PRAZOS

O engenheiro especialista em Segurança Contra Incêndio e diretor da Rava Campos Engenharia de Incêndio, Alexandre Rava, destaca que as edificações antigas precisam ser profundamente analisadas sob a ótica da legislação. “Hoje podemos dizer que os atuais regramentos são bem melhores do que aqueles que tínhamos nas décadas de 70 e 80. Neste cenário, temos que analisar detidamente os prédios antigos, entendendo-se como tal aqueles construídos anteriormente às atuais normas e legislações, haja vista que nem sempre é simples o cumprimento dos requisitos técnicos vigentes, podendo resultar também em soluções bastante onerosas”, avalia. Segundo ele, normalmente as medidas mais complicadas de serem implantadas residem nas adequações das escadas das edificações, isolamento de riscos, compartimentação e na implantação de sistemas mais robustos, como é o caso dos sistemas de chuveiros automáticos (sprinklers), por exemplo.

“NESTE SENTIDO, AS LEGISLAÇÕES ESTADUAIS PROCURAM ATENUAR AS EXIGÊNCIAS DE SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIO PARA AS EDIFICAÇÕES ANTIGAS, PROCURANDO ESTABELECER MEDIDAS COMPENSATÓRIAS OU, POR VEZES, ISENTANDO-AS DE DETERMINADAS MEDIDAS NA MEDIDA DO QUE É POSSÍVEL SER IMPLANTADO. A SUBSTITUIÇÃO DE CERTAS MEDIDAS POR OUTRAS, MESMO QUE APROVADAS PELA LEGISLAÇÃO COMPETENTE, NEM SEMPRE CONFERE O MESMO NÍVEL DE SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIO PARA A EDIFICAÇÃO ANTIGA, PORÉM, POR VEZES, É O QUE SE TORNA POSSÍVEL IMPLANTAR”, DIZ.

Apesar das alternativas oferecidas, o engenheiro vê, de forma geral, como um dos principais problemas o cumprimento dos prazos na adequação das medidas de SCI nestas edificações. “Embora as legislações estaduais estabeleçam prazos para adequação dos prédios, inclusive aqueles existentes (antigos), observa-se que estes não são cumpridos e, ao final e ao cabo, os governos estaduais determinam a prorrogação dos prazos em aceitação aos pleitos que vêm das assembleias legislativas. Isto tem provocado verdadeira procrastinação quanto à adequação das edificações, muitas vezes, expondo a população ao risco de novas tragédias”.

Ele acrescenta que também é preciso destacar que muitas edificações antigas são consideradas como patrimônio histórico e não adequar tais prédios à proteção contra incêndio coloca em risco a memória cultural, cujas perdas decorrentes são geralmente irrecuperáveis. “Assistimos cenas muito tristes como no caso do incêndio do Museu Nacional, no RJ, do Museu da Língua Portuguesa, em SP, e do Museu de História Natural, em MG. Se faz necessária maior atenção ao nosso patrimônio histórico-cultural”, afirma.

PPCI

Rava Campos também reforça a importância dos projetos executivos nestes locais, além do PPCI. “O PPCI caracteriza o Projeto Legal. Na minha avaliação, não corresponde ao conjunto de documentos necessários para que se tenha plena informação sobre as medidas de segurança contra incêndio que uma edificação precisa contar, especialmente as antigas. Neste sentido, é preciso que haja, complementarmente, os projetos executivos, que são capazes de detalhar cada medida de segurança contra incêndio”, explica. Conforme Rava Campos, em função da visão ‘minimalista’, observa-se que os projetos executivos geralmente não são contratados e desenvolvidos, o que inviabiliza a condução de adequado processo de seleção de fornecedores e deixa à mercê de cada instalador executar um sistema de proteção contra incêndio como bem entende. Nesta esteira, em função da inexistência do projeto executivo, também não costuma haver especificações de materiais e equipamentos, dando margem ao emprego de materiais de baixa qualidade e sem certificação reconhecida. Ele complementa que embora o projeto executivo conste na redação de muitas das legislações estaduais, muitas vezes, ele não é exigido, o que é um erro.

O INCÊNDIO

O incêndio de grandes proporções iniciou na noite do dia 14 de julho em uma sala do quarto andar e nenhum dos ocupantes se feriu. De acordo com o comandante-geral do CBMRS, coronel Bonfanti, a corporação foi informada do incêndio às 21h30 e os primeiros agentes chegaram ao local cerca de cinco minutos depois, iniciando pelo trabalho de evacuação das pessoas e depois no combate às chamas. “As dificuldades de combate ao fogo foram grandes, uma característica de todos os grandes incêndios, especialmente em prédios altos”, afirmou Bonfanti. Em entrevista ao portal GZH, o comandante comentou sobre os desafios. “Inicialmente não tivemos dificuldade para entrar no prédio, chegamos e fomos até o quarto pavimento, mas tivemos dificuldade de combate ao incêndio lá. No momento em que descemos para levar mais mangueiras, já não conseguimos mais chegar no quarto pavimento e já tinha o quinto pavimento com incêndio bastante forte, o que determinou recuo das guarnições e início do combate externo”. Segundo ele, a ação dos bombeiros fora do prédio teve problemas. “Tivemos que iniciar o combate a incêndio externo, onde também tivemos dificuldade, pela dificuldade de acesso e a nossa autoescada que não foi tão efetiva nesse combate”, disse em entrevista ao portal GZH. Com o incêndio, o prédio teve desabamento parcial pelo colapso da estrutura.

O RESGATE

Em entrevista à revista especializada diretor da Rava Campos fala sobre incêndio no prédio da SSP/RS

Crédito: Felipe Dalla Valle/Palácio Piratini

Paralelo ao combate ao incêndio, a corporação enfrentou outro desafio: o desaparecimento de dois bombeiros militares, o primeiro-tenente Deroci de Almeida da Costa e segundo-sargento Lúcio Ubirajara de Freitas Munhós. A partir de então, uma complexa e extensa ação de resgate foi implantada. Segundo o Governo do Estado do RS, desde o início dos trabalhos de combate ao incêndio, com o SCI (Sistema de Comando de Incidentes), o CBMRS organizou uma estrutura operacional completa para viabilizar o trabalho ininterrupto de combate ao fogo e resfriamento da área. Tão logo se verificou a ausência de dois bombeiros militares que atuavam na ação, também foi mobilizada toda a capacidade de busca e resgate aos desaparecidos ininterruptamente. O pátio da SSP foi organizado em setores para alocar todo o efetivo e equipamentos necessários à operação de resgate, foram eles: Vigilância, Posto de Comando de Operações, Barraca de apoio, Área de espera e estacionamento, Área de impacto, Área de atendimento, Alojamento e Restaurante de campanha e Equipes da Defesa Civil e de engenharia. Além da organização do trabalho, as buscas envolveram remoção de escombros com ferramentas leves e auxílio de maquinário pesado, próprio para a atividade, equipamento de captação de sons, técnica de chamada e escuta, uso de cães em um perímetro delimitado de segurança e de drones.

No dia 21 de julho, após uma semana de trabalho intenso com remoção de escombros e a abertura de acessos, os corpos dos dois bombeiros foram localizados no térreo do edifício, sob os escombros, encerrando a etapa do resgate. Segundo o Governo do Estado, a etapa seguinte é a demolição total do prédio, condenado pela área técnica. Em 23 de julho, a SSP iniciou sindicância para apurar causas do incêndio.

VOLUNTÁRIOS

Equipes de bombeiros voluntários do estado do RS também auxiliaram no combate ao incêndio. “O Corpo de Bombeiros Voluntários de São Sebastião do Caí foi acionado pelo Comando do Corpo de Bombeiros Militar do Estado por volta das 22h30 e mobilizamos uma equipe extra para não desfalcar o plantão dos atendimentos locais. Em cerca de 15 minutos já estávamos em deslocamento para Porto Alegre, chegando logo depois da meia-noite. Chegando ao local havia vários focos grandes de incêndio no prédio e notamos a presença de um grande contingente de bombeiros. Além disso, o trânsito era intenso de caminhões realizando o reabastecimento de água”, diz Anderson Jociel da Rosa, comandante do Corpo de Bombeiros Voluntários do município e presidente da Voluntersul. Jociel lembra que a corporação caiense disponibilizou três viaturas: um AT com capacidade de 15 mil litros de água e canhão automático de água, uma carreta de água com capacidade para 30 mil litros e um caminhão plataforma elevatória com alcance para 32 metros de altura, além de nove bombeiros.

Além da corporação voluntária de São Sebastião do Caí, esteve presente o Corpo de Bombeiros Voluntários de Igrejinha/RS, com mais três bombeiros e uma viatura para suprimento de ar respirável para reabastecer os cilindros dos EPR (Equipamentos de Proteção Respiratória) dos bombeiros, que foi colocada à disposição dos voluntários e militares na cena.

Segundo ele, o Corpo de Bombeiros Voluntários de Eldorado do Sul/RS, com duas unidades de combate a incêndio, uma unidade de resgate e oito bombeiros, já estava presente na cena quando foi solicitada a ajuda da corporação caiense. Ele atuou auxiliando no reabastecimento das unidades que supriam as escadas mecânicas do CBMRS.

Jociel avalia que incêndios deste porte são sempre extremamente perigosos. “Eles requerem boa articulação e um bom preparo dos profissionais e da cadeia de comando no local, o que, sem dúvida, houve. No nosso caso, acredito que conseguimos dar uma contribuição importante e foi uma honra poder ajudar”, diz.


Solicite um orçamento

Whatsapp